quarta-feira, 1 de outubro de 2014

1. (miss)placed

A robusta mesa de madeira se estendia sob os seus cotovelos. As mãos estavam levemente entrelaçadas na altura do queixo e o copo d’água que ela acabara de encher continuava intacto logo ao lado. Os olhos caídos, quase fechados, fitavam a cozinha recém-reformada com a sensação estranha de não lembrar como era antes.

Então entra um alguém, que caminha em volta da mesa, abre os armários em busca de algo e depois se senta do lado oposto. Se não fosse pela familiaridade com a localização das coisas e a intimidade com que explorava o lugar, o julgaria por um desconhecido, com feições e trejeitos absolutamente estranhos.

Olhou em seu rosto e tentou subtrair as finas linhas em volta dos olhos, os primeiros cabelos brancos que coroavam o topo de sua cabeça. Retirou com os olhos o pijama velho que o cobria para encontrar costas, pelos, braços que ela talvez conhecesse. O jeito com que ele a olha de volta não deixa nenhuma pista e ela não sabe distinguir se por efeito da indiferença ou da intimidade.

A paisagem enquadrada pela janela é bonita e ela também a observa como se desembrulhasse um presente. Nuvens cinza avançam no horizonte, longe, e o vento sopra forte a ponto de empurrar uma das bandas da janela. O estrondo acorda os sentidos e ela se vê refletida em um dos quadradinhos de vidro. Uma mulher, desconhecida. 

Elas se entreolham e uma mistura de medo e nostalgia a invade, aos poucos, em pequenas doses. Ela conhece aquela cozinha, aquele homem, aquela paisagem, aquela mulher. 

Nada mudou.

sábado, 24 de agosto de 2013

Cora

Você era a sua voz. Durante os 4 meses que estive cego e que você cuidou de mim, a minha figura era a de um homem enrugado pelo fogo, deitado imóvel na cama com os olhos esbugalhados, vermelhos. Você não tinha imagem. O timbre da sua voz e a sua respiração não se encaixavam em nenhuma silhueta possível e a minha cabeça não encontrou outro caminho senão te associar a cores.

Você era as suas mãos. Durante os 4 meses que estive cego e que você cuidou de mim, as suas mãos foram o meu atalho para a dor e o alívio. Os seus movimentos rápidos e precisos me fizeram curativos, me alimentaram, mediram minha temperatura, me deitaram à noite, e eu sonhava um mergulho em mar aberto, o sal abrindo as minhas feridas.

Você era as suas cicatrizes. Durante os 4 meses que estive cego e que você cuidou de mim, eu descobri, além da sua voz e das suas mãos, a cordilheira que você cultivara no peito. Com a ponta dos dedos eu li a sua história e não me senti mais sozinho. As suas marcas não eram queimaduras como as minhas, mas eram marcas de outro fogo, um que nunca para de queimar. Então, com as minhas mãos, eu segurei o seu rosto minúsculo e com a minha voz, eu beijei a sua. E foi como um mergulho em alto mar, o sal curando as feridas.

Você era o seu silêncio. Durante 4 meses eu estive cego, agora eu posso ver.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Prateleira

Te achei assim, num dia qualquer
Livraria pequena do centro
Frase solta perdida no meio de um livro

Esmiucei as palavras
Ativei os meus sentidos para entender melhor
Os seus

Cheguei em casa, te escrevi pelas paredes
Nas vidraças das janelas
No cantinho dos cadernos
No painel do elevador...

E era tão bom te amar assim!
Tão sem contexto,
Tão sem passado,
Sem personagem.
Sem 3ª edição.

domingo, 19 de maio de 2013

Dear me

Eu queria poder tomar uma decisão e viver de bem com ela pra sempre. Eu queria abrir mão desse tormento que é a minha consciência oscilando entre a coragem e o medo a cada cinco segundos. Eu queria me impor e dizer em voz alta as coisas que eu quero. Eu queria saber quais coisas eu quero. Eu queria chutar para o alto, de uma vez por todas, essa balança de futuro e passado e abraçar o presente, só o presente. Eu queria parar de tentar ser o que as pessoas acham que eu sou. E eu também estou longe de querer ser quem eu sou nesse exato momento. Eu só queria uma felicidade sem pesos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Flashforward


Eu sei de tudo que eu devo fazer. Passei os dois últimos meses pensando profundamente em prós e contras, em consequências. Tomei a minha decisão duas noites atrás, mas ainda não disse nada. Poderia mentir e dizer que eu ainda não consegui, mas a verdade é que eu não quero. No fundo, o meu maior desejo é que você possa captar as coisas no ar, sem que eu tenha que dizer as palavras. Sempre acontece com a gente.

Tomei a minha decisão uma semana atrás, mas preferi adiar por alguns dias a nossa conversa. Enquanto isso, eu bebo cada segundo, como alguém prestes a ir para o deserto por vontade própria, e me flagro em pedidos desesperados de socorro que só eu mesma conseguiria entender, atender.

Viajei alguns anos no tempo e senti a saudade que eu sentiria de você. Tomou o meu corpo inteiro e doeu lugares que eu nem sabia que existiam. Pensei em desistir e rever as minhas opções, mas, ao contrário, te abracei mais forte, como se tentasse extrair a sua essência, guardar em um vidrinho os seus braços longos, as sobrancelhas arqueadas, as suas palavras raras, mas sempre bem ditas. Esculpi os nossos últimos dias como alguém que quer evitar de qualquer maneira os arrependimentos do futuro. “Se eu soubesse que seria assim, teria aproveitado melhor”.

Tomei a minha decisão um mês atrás e eu deveria fazer o que é certo, mas não há contras suficientes. Só consequências demais.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Capítulo


Os dois tinham adiado aquele dia por semanas. Talvez por não quererem se ver depois de tudo que tinha acontecido, talvez por ainda haver alguma esperança de que tudo aquilo não fosse ser necessário. Dividir uma estante inteira de livros ia ser uma tarefa árdua, ambos sabiam. Nunca imaginaram, ao longo de todos os anos que levaram para construir aquele pequeno acervo juntos, que teriam de passar por uma partilha. Eram um casal diferente, em diversos aspectos: toda a parte litigiosa que geralmente envolve móveis, carros, apartamentos tinha sido rapidamente resolvida por uma espécie de acordo não verbal. Suas vidas eram bem independentes nesse sentido e não houve problema na hora de decidir quem levaria a poltrona da sala ou o telefone antigo que ficava na bancada da cozinha. A única área daquele apartamento onde seus territórios realmente se cruzavam era a imponente estante de livros. 

Não havia como ignorar a importância de cada página ali. Cada história era um pedaço da mistura em que tinham se transformado, cada personagem era um amigo em comum que os havia feito companhia em noites difíceis, em viagens a outros países, em dias de solidão e de dúvida. Todos os livros do acervo tinham sido lidos pelos dois, sem exceção, em cumprimento a um pacto que fizeram assim que passaram a morar juntos. Não é estranho então que existissem dois volumes de uma mesma obra em alguns casos: às vezes, a ansiedade era tanta que era impossível esperar o outro terminar a leitura. Chegavam a trocar mensagens de texto com comentários sobre o que tinha acontecido no último capítulo ou ligavam um para o outro e tinham discussões calorosas no meio do trabalho por causa da reviravolta na vida do personagem principal. Muitas vezes, deitados lado a lado na cama com os livros no colo, interromperam a leitura um do outro para dividir uma citação impressionante ou choraram em silêncio, só com lágrimas, quando as ficções ficavam muito parecidas com a realidade. 

A campainha tocou e ela foi atender, meio inibida pela peculiaridade da situação. Ele entrou segurando algumas caixas ainda desmontadas na mão, inclinou-se e beijou-a no rosto com a mesma delicadeza que lhe era de costume. Foi andando até as prateleiras com a intimidade de alguém que viveu naquele espaço por mais de 10 anos e passou a mão nas lombadas de todos os livros da última fileira, onde ela nem podia alcançar.

–Isso não vai ser tão difícil, vai? – ele perguntou.
–Eu acho que não... – ela respondeu com pouca convicção – Pensei em um esquema para facilitar as coisas: a gente começa dividindo os volumes repetidos, que não vão gerar dúvida. Depois a gente separa os livros acadêmicos, passa para as coleções, para os livros de arte e de poesia, para os romances e então acaba.

Ele riu entre os dentes. Ela não perguntou, mas sabia que era uma crítica a sua mania de organizar e criar métodos para tudo. Sem dizer nada, começou a garimpar os títulos repetidos enquanto ele montava as caixas que tinha trazido. Em questão de minutos, já tinham enchido duas caixas e, mesmo assim, a diferença na prateleira era quase invisível. Ele pegou os livros de economia e direito e ela separou os volumes de arte e arquitetura, mesmo percebendo que o olho dele escorregava constantemente para o sofá, onde ela empilhava uma coleção de surrealistas franceses. Eram os preferidos dele e ela sabia.

Tinham gostos muito diferentes quando o assunto era poesia, mas aprenderam a gostar de muitas coisas por causa da convivência, o que tornou tudo mais difícil. Sentaram-se em lados opostos e decidiram espalhar os livros pelo chão para facilitar o processo. 

–Posso ficar com o Quintana e com o Drummond? – ele perguntou, meio inibido.
–Hum, pode. Mas então vou pegar Adélia Prado e Walt Whitman.
–Dickinson, Gregório de Matos, Borges...
–Borges não! – ela falou um pouco acima do tom – Eu queria muito ficar com o Borges.
–Tudo bem – os olhos se cruzaram por alguns instantes. Dentro das cabeças o mesmo filme passava: a viagem para Argentina, que tinha feito os dois gastarem fortunas com o excesso de bagagem e tinha dado início à paixão dos dois pela literatura da América Latina.

Terminaram as poesias e passaram para a ficção. Era o cerne da coleção. Reuniram todos os volumes no centro da estante e ficaram encarando o muro maciço durante alguns segundos. 

–Você tem alguma coisa pra beber aí? – ele perguntou.
–Não tenho nada... Vamos comer algo.

Os dois foram para a cozinha e prepararam em silêncio uma refeição pequena com o que tinha na geladeira. Se revezaram no fogão e depois lavaram a louça. Sentaram no sofá em meio aos livros dela, com as canecas cheias de café e o coração apertado pelo tempo que se esvaía, pelo orgulho atravessado na garganta. Ele começou: 

–Pensei em ficar com os beats, por motivos óbvios. – e então riu. Tinha a adolescência embrulhada naqueles livros, por mais que isso não condissesse com a sua aparência – Mas lembrei do quanto você gostou quando leu Kerouac e acho que vou deixar eles com você. Até porque eu compraria tudo de novo sem o menor esforço...
–Tive a mesma ideia em relação aos meus “romances de mulherzinha do século XIX”. Consigo reconstituir com precisão de detalhes o final de semana em que você leu North and South, sentado aqui mesmo nessa poltrona. Melhor ainda! Lembro de você falando que tinha gostado muito por causa do “valor documental sobre a revolução industrial na Inglaterra”! – ela respondeu, imitando a voz dele.

Os dois riram como já não faziam há meses. As lembranças, que ambos estavam tentando evitar desde o momento em que a campainha foi tocada, começaram a se acumular na superfície como as penas de um travesseiro que estoura no ar. Leves e lentas, muito agradáveis de se ver no início, mas trabalhosas e incômodas quando já formam um tapete grosso no chão. 

–Isso não tem sentido nenhum. – ela disse com a voz baixa e pesada, quebrando o silêncio sepulcral que havia se instalado depois da audível crise de risos.
–Eu não quero levar essas caixas embora. A gente não precisa fazer isso.
–É, eu também acho. A gente pode deixar os livros aqui e você pode vir sempre que precisar pegar algum. Ou eu posso levar pra você, sei lá.

Eles se conheciam há tempo demais para não entenderem o que havia realmente por trás daquelas palavras. Ele passou a mão no cabelo dela e ela arranhou de leve a sua bochecha. Beijaram-se por longos minutos e adormeceram no sofá, em cima dos livros. 

Não havia berço mais coerente. Estavam juntos outra vez.


domingo, 9 de setembro de 2012

Ar


      O rubor já tinha começado a desaparecer das bochechas dela e o coração já tinha adotado uma batida mais resignada, quando a porta do elevador se abriu e ele saiu de cabeça baixa, carregado de sacolas. A falta de resposta às várias batidas que ela havia dado na porta dele tinha causado uma mistura de emoções que ela não conseguia processar: metade dela sentia alívio, a outra também; depois, uma outra metade apareceu, absolutamente decepcionada e esperando dar um destino a todas aquelas palavras ensaiadas; no final das contas, o contentamento já tinha se instalado e ela caminhava até o início do corredor refazendo os planos que já estavam tão bem arrematados.

      Aquela aparição inesperada tinha lhe tirado o rumo (mais uma vez), como quando um ímã se aproxima da bússola. A cabeça permaneceu baixa, mas ela sabia que já tinha sido notada. Teve a confirmação quando ele olhou para cima com uma expressão “feita”, uma máscara de indiferença muito mal ajustada, que não convencia, mas machucava de qualquer forma. Os olhos eram duros de julgamento e a boca quase gritava um insulto só através da maneira como estava fechada. As sobrancelhas arqueadas, severas, não combinavam com o tom de pele claro e rosado nas bochechas, agora cobertas com uma barba mal feita.

      As primeiras palavras trocadas não valem a pena serem transcritas. Nada além de um roteiro de filme barato, cheio de “porquês” e “você não tinha o direito”. Mas, quando as palavras ensaiadas acabaram, algo realmente sincero saiu da boca dela:

      -Olha, eu não sei por que essa discussão começou. Eu vim aqui disposta a aceitar qualquer culpa, a engolir o orgulho e a pedir desculpas. Só desculpas. Você não foi o motivo de eu ter ido embora, você não tinha nada a ver com isso, pra falar a verdade. E Deus sabe como você me fez falta esse tempo todo! (silêncio constrangedor pós-revelação que ela considerava muito íntima) Não quero que você diga nada, eu só precisava vir aqui e mostrar um pouco de humilhação e arrependimento (que são as duas coisas que eu mais odeio demonstrar no mundo, e você sabe disso). Eu precisava disso para continuar.

      Os dois ficaram se olhando por um bom tempo e então ele começou a andar em sua direção. Ela ficou se perguntando o que aquilo queria dizer. As sacolas balançavam em sua mão e pareciam pesadas demais. Ele ia abraçá-la? Ele ia se aproximar só para insultá-la mais de perto? Ou ele queria que o NÃO fosse mais audível? Ao contrário das expectativas, ele se desviou pouco antes de chegar à frente dela e passou direto. De costas, ela pôde ouvi-lo pousando algumas sacolas no chão, pegando as chaves do bolso e abrindo a porta com um pequeno estardalhaço.

      Uma das poucas coisas que tinha aprendido em todo aquele tempo de relacionamento era a interpretar pequenos gestos, e aquela postura não soava nada bem. Ela tinha falhado, mais uma vez. Já estava preparada para uma entrada rápida e uma batida violenta de porta, mas tudo que sentiu foi um vento leve soprando a saia. Vinha da janela da sala, oposta à porta principal. Ela se manteve de costas com os olhos fechados, esperando o estrondo da porta e uma lufada de vento ainda mais forte, mas tudo que recebeu foi mais um pouco daquela brisa fazendo brincadeiras com a sua saia. Virou-se devagar e encontrou a porta azul aberta, com as chaves balançando pelo lado de dentro.


Esse conto me veio à cabeça enquanto eu via esse filme esquisitinho e legal

sábado, 18 de agosto de 2012

Poesia


Essa         pichação é pra dizer que eu cansei dos seus abraços tangentes, desses seus beijos sem gosto, dessa sua vida certinha. Resolvi usar a pare o muro da frente porque eu já me 
cans fartei da entrada dos fundos, do elevador de serviço, da porta da cozinha. Devia ter desconfiado desde o início,                   só de ver essa sua mobília toda combinando, esses talheres e copos iguais que 
vêm em kit.                                                                                                               E esco
     E escolhi uma pichação no lugar de uma carta pra mostrar pra mim mesmo que essa sua mania de ser discreta e sóbria NÃO pegou em mim. E também foi pra fazer você passar vergonha, é claro. HAHA
                                                       ==> Só mais um recado: 
quando for repintar o muro pra apagar isso aqui (o que eu tenho CERTEZA que você vai fazer), vê se usa um vermelho ou um verde. Esse amarelo combina demais com      Você.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Fuso


      Ele, se pudesse, usaria toda a sua força para sair correndo pela bola da Terra e ir pulando, como se fossem obstáculos, cada fuso horário que encontrasse. Ela voaria para além da atmosfera e esperaria o mundo dar três quartos de volta para só então pousar de novo, se fosse conveniente. Se pudessem desaprender a matemática básica, o fariam. É cansativo demais fazer contas de + 6 ou – 6, adicionar 1 para quando é verão, depois subtrair quando for inverno... Fariam, os dois, tudo que fosse necessário para evitar os clichês “o que será que ele está fazendo agora?” ou “será que ela já foi deitar?”.

      Se fossem escolher os próprios sonhos, não escolheriam nada parecido com uma chuva de relógios gigantes ou um afogamento dramático depois de horas a nado. Pensavam constantemente na época em que o tempo era só uma questão de ponteiros, e não de distância. Lembravam-se com saudosismo do privilégio de dividir um mesmo horizonte (que um dia tiveram). A última coisa que pensavam para o próprio futuro, há alguns anos atrás, era isso.

      Mas, por distração do destino, no fim da tarde de uma terça-feira gelada (para ela) e no meio dia da mesma terça-feira geladíssima (para ele), o sol se pôs em um espetáculo único. E quando digo único, não me refiro só à beleza singular do fenômeno, mas ao fato de estar acontecendo ao mesmo tempo para os dois lugares. Para os dois.

      Na teoria, aquele pôr do sol indicava o início de um inverno rigoroso, principalmente para ele. Na cidade onde estava, ele só veria noite por uns bons meses. Mas, na prática, aquele momento tinha reacendido alguma coisa dentro dela e despertado o melhor dos sentimentos para ele. O inverno tinha oficialmente começado, mas, dentro dos dois, era primavera.


domingo, 15 de julho de 2012

Sobre como deveria ter sido

     Saltaríamos do táxi em frente à entrada principal, você carregando as malas grandes e eu fingindo ajudar, pegando uma mochila pequena e a minha bolsa de mão. Cruzaríamos as portas automáticas e andaríamos pelos corredores demasiadamente iluminados, preocupados em achar o guichê certo e conferindo o relógio a cada cinco minutos. Não que fôssemos estar atrasados, mas esse é um dos artifícios para quando estamos em situações desconfortáveis, recorrer a um hábito corriqueiro como conferir as horas. Enfrentaríamos as filas tentando travar diálogos simples, nada muito nostálgico ou relevante. 

     Depois de despachar a bagagem, tomaríamos café em uma daquelas lanchonetes com mesinhas para dois. Eu faria alguma observação sobre as flores do balcão, você diria que o pedaço de bolo que pediu não estava bom. E enquanto o líquido escuro descesse pelas nossas gargantas, o silêncio finalmente se estabeleceria entre nós. Não como um elefante grande e inconveniente, como ele costuma ser nessas situações, mas como um alívio que ambos estavam adiando, incompreensivelmente. 

     Andaríamos até a ala de espera e sentaríamos lado a lado em um daqueles bancos enormes. Eu correria os olhos sobre um livro qualquer e você ficaria no celular, checando e-mails. Depois de alguns minutos, eu te daria o livro e pediria o celular para ouvir música. 

     Quando finalmente o aviso do voo soasse nos alto-falantes do aeroporto, nos levantaríamos e eu te levaria até o portão de embarque. Você deixaria a mochila no chão e me abraçaria como se fosse a última vez. Talvez fosse, realmente. Minha cabeça encontraria o ponto exato entre o seu pescoço e a sua clavícula, onde ela se encaixa tão bem, e nós ficaríamos ali por pelo menos 5 minutos. Quando fosse mesmo hora de ir, meus dedos se aninhariam em seu cabelo e nós daríamos um beijo curto. Provavelmente seria estranho, com gosto de choro apesar de não haver lágrimas. Com jeito de último, embora não houvesse certeza. 

     Você pegaria sua mochila e iria embora sem olhar para trás. Eu ficaria te olhando até você virar um ponto no fim do corredor. A essa altura, com certeza haveria lágrima em meu rosto, mas eu não sentiria como se estivesse quebrando uma promessa. Por trás do seu andar seguro em direção àquele avião, eu seria capaz de ver a água nos seus olhos também. 

     Mas, apesar da quantidade insana de futuro do pretérito nesse texto, não é assim que deveria ter sido. O bom, pra mim, seria se você nunca tivesse ido.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fatal


     E então, em meio a um abraço, meu punhal perfurou pele, gordura, músculos, abriu algumas dezenas de vasos sanguíneos e finalmente encontrou os tecidos vitais que procurava, causando um estrago quase instantaneamente fatal.
     O corpo mole caiu aos meus pés e a roupa de linho branco, ensopada de sangue, estava colada na ferida recém-aberta.  A respiração se manteve calma até o momento em que o líquido obstruiu a garganta e passou a também sair pela boca, formando um filete vermelho vivo no canto do lábio.
     Ciente do meu êxito, olhei para o rosto da vítima durante os seus últimos segundos. Os cantos da boca lentamente se curvaram para cima e os olhos cintilavam com um brilho meio tétrico, como se desejassem aquele momento. Ela queria ser morta.
     Talvez não tanto quanto eu queria matá-la. Saudade.

sábado, 2 de junho de 2012

Solidão é saudade de alguém que nunca existiu


    Ontem, quando cruzou aquela avenida, sentiu solidão. Parecia que área de seu corpo que envolve o coração estava se encolhendo devagar e sendo empurrada pra dentro, mas tudo continuava estável pelo lado de fora. Nos primeiros minutos, soou como uma melancolia saudável, aquela tristeza leve que a gente sente às vezes, quando está sozinho, e que passa assim que lembramos de alguma coisa boa. Essa solidão faz até bem, pensava ela. Faz você se sentir um personagem de filme ou de livro, que sempre toma as decisões mais importantes do enredo enquanto anda sozinho pelas ruas ou toma uma bebida amarga no balcão de um bar vazio.
    O problema é que, ontem, não havia decisão a ser tomada, não havia uma ligação importante a ser feita. Não havia sequer uma tristeza boa para ser lembrada ou um passado negro a ser remoído. As tolices da adolescência, que costumavam diverti-la e até mesmo inspirá-la, viraram apenas tolices e lembranças das quais se envergonhar. Entre uma passada e outra, tudo se tornara ridículo, fútil, intragável, sem propósito: as roupas, o jeito que tinha prendido o cabelo, a mensagem que tinha mandado para o amigo que já não via há tempos (e que não tinha sido respondida), o flerte com o desconhecido no ônibus. É incrível como alguns minutos desse sentimento podem fazer você se arrepender de tudo que fez nas últimas 48 horas. É como se você mesmo se tornasse o único espectador de todos os seus atos e decisões e julgasse cada palavra, cada movimento.
    Dessa vez, não era solidão Hollywoodiana. Não havia o que ser feito.
    Agora, pelo menos, ela tinha uma explicação: solidão é saudade de alguém que nunca existiu.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Bip

Não estamos em casa, deixe o seu recado após o Bip

“Meu Deus, uma secretária eletrônica... Isso vai ser estranho, mas vamos lá: terça feira eu passei no apartamento pra pegar algumas coisas que estavam faltando e acabei passando umas duas horas por lá. Depois de encaixotar as coisas, eu passei pela varanda e lembrei como a vista era linda (você reparou naquele céu de terça?). Você sabe como eu amo os últimos minutos da tarde... Ver tudo se transformando de amarelo para laranja e depois para rosa e lilás até virar breu. É como se a gente pudesse aproveitar o melhor dos dois períodos, sem ter que escolher. Nunca consegui decidir se sou uma pessoa do dia ou da noite. Mas enfim, quando as primeiras estrelas começaram a aparecer, a minha visão ficou turva e eu percebi que estava chorando. É claro que eu já chorei antes, mas nunca passou de um aperto no peito e um olho marejado. Mas na terça eu cheguei a molhar as mangas da minha camisa com lágrimas e dar uns soluços tipo os que as mulheres dão nos filmes. É que eu percebi que essa mudança não tem nada a ver com janelas maiores ou tomadas mais bem posicionadas... Também não tem a ver com paredes menos sujas de memórias ou um sofá com menos vincos de experiências. Há muito tempo, a minha ideia de lar era qualquer lugar onde eu estivesse com você, e lembrar disso tornou o noss... o apartamento frio demais. Entregar as chaves na imobiliária foi como assinar um contrato de abandono de você.
Enquanto eu chorava, a única coisa em que eu pensava era se aquele momento equivalia às cenas dos filmes em que o mocinho conclui uma fase e segue, de queixo erguido, para uma muito melhor; ou se aquele momento tinha mais a ver com o choro amargo dos finais infelizes ou com o choro insignificante de algum coadjuvante, de quem todos sentem pena.
O que eu quero de verdade com esse telefonema é dizer que eu sinto muito, muito mesmo, se eu demorei demais para entender a profundidade das coisas. Se esse for mesmo o momento em que a nossa estrada se bifurca, que a gente possa ser grato ao destino pelo que vivemos até aqui. Que a gente possa ser grato às circunstâncias invisíveis (mas palpáveis) que vão nos poupar de algo que nós nem mesmo queremos. Ou que só achamos que queremos. Desculpa se estou meio confuso, acabei de beber uma garrafa inteira daquele champagne velho que a gente guardava pra ocasiões especiais. Droga, não devia ter falado isso... Agora você vai achar que eu estou falando essas coisas da boca pra fora. Mas eu não estou, eu posso jurar. Você mesma diz que a bebida só faz você colocar pra fora coisas que você já queria dizer, mas não teve coragem. No meu caso, acho que não faltou coragem... Mas sobrou orgulho, isso é verdade.
Esse papo de champagne também me fez perceber que eu já não sou um garoto. Eu preciso tomar decisões todos os dias, todas as horas... e hoje eu vejo que não consigo tomar decisões sozinho. Parece que o meu “eu tomador de decisões” é um mosaico de todo mundo que já passou pela minha vida. A voz que diz “não” ou “sim” ou “talvez” é uma mistura da voz dos meus pais, dos meus professores, dos meus amigos de faculdade, de trabalho, da sua voz. Não acho que isso seja uma falta de personalidade nem nada, é algo que acontece com todo mundo. O ponto é que eu não consigo me desvencilhar das pessoas que passaram pela minha vida, porque eu sou um pouco de cada uma delas. Entendeu mais ou menos?
Preciso de um lugar onde eu possa pintar a nossa história nas paredes e no teto. Um lugar em que eu possa olhar pra mim mesmo todo dia e que isso não doa. Talvez eu nunca consiga ou talvez semana que vem eu já esteja muito bem sucedido. Eu não sei.
(silêncio)
Mas se no final das contas eu descobrir que esse lugar é um lugar que nós já conhecemos, que só nós dois conhecemos, eu quero que você vá comigo. Eu quero esquecer as bagagens e as caixas e quero que você vá comigo.
Acabei de receber o aviso de que meu tempo está acabando. Se um dia você chegar a ouvir isso, quero que me ligue imediatamente. Quando eu vir o seu nome piscar na tela, vou saber sua resposta. Não é pretensão nem nada... É que eu sei que esse telefone continua no nosso apartamento. Se você voltar lá algum dia e ainda apertar o botão da secretária, só pode ser um sinal, um sinal de que é pra ser. Por que é como eu acabei de dizer: o destino nos poupa das coisas que não queremos de verdade, mas se algo tem mesmo que acontecer, ele dá uma força.
Te amo, até logo.”

*Três músicas que eu amo devem receber créditos por esse texto (e merecem ser ouvidas): Somewhere only we know, Home e Evening Kitchen

sábado, 24 de dezembro de 2011

Silêncio

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas têm dias que eu sinto que o mundo é cheio demais. E eu não estou falando de multidões em shoppings ou de shows de rock. Aqui mesmo, na minha casa, quando estou sozinha com meu peixe e com o apresentador do jornal da noite, é como se faltasse ar. Sei o quanto isso parece patético, mas enquanto eu não vou me deitar, deixo a tv ligada ou a vitrola tocando. É mais confortável, é como se alguém de fato estivesse aqui.

O que é realmente assustador é quando as luzes se apagam. Sempre tenho a sensação de que o interruptor também controla a quantidade de oxigênio no quarto. Quando o meu corpo encosta na cama, um homem gordo e alto vem e aperta a minha garganta. Fico sem fôlego e minutos depois alguma coisa dentro de mim se expande e eu penso que vou explodir. É como se fosse um outro homem alto e gordo, só que por dentro.

Fico lutando em vão por alguns minutos, tentando conter a situação sozinha, mas as minhas mãos, em um movimento involuntário, deslizam até o celular e eu aperto o botão laranja.

“Oi filha! Não sei se você tem o costume de ouvir essas mensagens, mas vou ter que falar por aqui mesmo, já que você nunca atende o telefone. Eu e sua mãe vamos até o sítio da tia Cláudia amanhã e só voltamos na segunda. Estou avisando só para o caso de você ligar e não encontrar a gente em casa. Não precisa ficar preocupada. Se você puder, avisa pro seu irmão também. Te amamos, boa sorte com a entrevista de amanhã!”

Um pouco de óleo na pista e tudo o que restou da minha família foi essa mensagem de voz. Aperto o repeat até conseguir dormir, se não o homem alto vem me estrangular de novo.

Perdi meu celular há duas semanas. Foi difícil no início, passei uns três dias sem dormir. Quando finalmente me rendi, o homem alto veio e me passou a mão pelos cabelos. Ainda assustada, o senti entrando pelas cobertas e me abraçando delicadamente. Dormi depois de 2 minutos de cafuné.

Hoje em dia, ele nem me parece tão gordo. Hoje em dia, nós somos amigos. Hoje em dia, o levo para todo lugar que eu vou. O mundo continua cheio demais pro meu gosto, mas quando eu estou com o homem alto, as pessoas mantêm distância.
Melhor assim.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Desengano

Por alguns minutos, eu pude realmente acreditar que eu tinha voltado no tempo, que as coisas tinham se restabelecido. Algum passe de mágica, que eu já não lembrava mais qual foi, tinha me trazido de volta para casa, tinha me colocado de novo naquele abraço confortável. Fazia força para lembrar como eu tinha conseguido ir para lá, mas ao mesmo tempo eu não queria. Alguma coisa me dizia que aquilo ia ser curto, ia se esvair como areia entre os dedos.

Pensei que podia ser um sonho, mas já tinha sonhado várias vezes com isso e nenhuma delas tinha sido tão palpável. Cheguei a considerar que tudo fosse um devaneio, dos fortes. Mas a última coisa da qual me lembro é de estar andando no shopping. Se fosse mesmo um devaneio, as pessoas já teriam interferido, já teriam perguntado se eu estou bem ou se eu quero um copo d`água. Digo com essa certeza porque já aconteceu, várias vezes.

Dessa vez era diferente. Eu sentia o calor, eu sentia o gosto. Eu sentia os meus dedos fincados em um braço, tão flexionados que até doíam. A minha panturrilha e os meus dedos latejavam, já que eu estava na ponta dos pés para que as bocas se encontrassem.

Mas porque eu estava segurando o braço com tanta força? Porque eu tinha que ficar na ponta dos pés? Pelo que eu me lembro, a gente tem mais ou menos a mesma altura... E por que a sala da nossa casa tinha ficado tão barulhenta de uma hora para outra?

Abri os olhos e tinha a minha frente um homem completamente estático, enrijecido. Um completo desconhecido. Um pouco do meu cabelo tinha se prendido em sua barba e ele estava visivelmente desconfortável com os meus dedos praticamente atravessando o tríceps dele. Me descolei vagarosamente e olhei em volta, meio que por impulso. Uma menininha, linda, me olhava com dois olhos imensos enquanto agarrava a mão do pai. Algumas pessoas que estavam sentadas no café e que tinham visto a cena desde o início me encaravam com indiscrição.

Eu tinha lançado o meu corpo sobre um estranho e, como se não bastasse, tinha o beijado com voracidade na frente de sua filhinha, de no máximo 4 anos. Hoje, pensando melhor, vejo que a semelhança entre vocês era pouca: no máximo a barba, ou o porte físico.

Só sei que, apesar de ter pedido muitas desculpas àquele homem, eu não me arrependia do que tinha feito. Quando disse que o tinha confundido com outra pessoa, eu estava mentindo. Naquele curto espaço de tempo, aquele homem, para mim, foi você.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Wake up call

_Até que enfim!

_Oi pra você também! Como você tá?

_Eu tô bem, meio cansada só. E você? Porque ficou tanto tempo sem dar notícia?

_Acho que eu queria me certificar de que você ia sentir saudade de mim...

_Humm, idiota... Como vai essa cidade horrível?

_Você nem sabe onde eu tô!

_Força do hábito... Diz que eu errei!

_Não, você acertou... hotel de quinta, chuva desde 5 horas, nada de frigobar.

_Graças a Deus! Você lembra do que fez da última vez?

_Estou tentando afastar essa imagem da minha mente desde o mês passado e agora você fez ela virar uma tela aqui no meu quarto. Tô olhando e perguntando quem pôde ter tanto mau gosto.

_Ah, essa eu sei: foi você mesmo.

_Legal... mas me diz, o que você tá fazendo agora?

_Ai, essa era a última coisa que você podia perguntar...

­_Diz logo.

_Tô comendo brigadeiro, deitada na rede da varando do meu quarto, ouvindo música pop de baixa qualidade, pensando em tudo que eu tenho pra fazer até segunda.

_Terminou, né?

_Terminei... Todo mundo já sabia que isso ia acontecer.

_Pois é, eu terminei também...

_Mas você não tava namorando ninguém, seu babaca.

_Foi só pra você não se sentir sozinha! E muito obrigada pelo babaca.

_De nada.

_Hei, posso dizer o que eu tô fazendo nesse exato momento?

_Se não tiver nada a ver com pornografia ou falta de higiene, pode.

_Então deixa pra lá...

_Que nojo!

_Brincadeira... Estou finalmente lendo aquele livro que você me deu no meu último aniversário e cheguei a uma conclusão que mudou minha vida.

_Que legal! Que conclusão é essa?

_Eu saquei que, no final das contas, eu vou casar com você, mas que antes disso acontecer, você ainda vai me chamar muitas vezes de idiota e eu vou passar por diversas garotas erradas.

_Posso te chamar de idiota agora para contribuir com a sua cota?

_Eu ficaria lisonjeado. Aliás, estou até pensando em descer para o bar para encontrar várias garotas erradas de uma vez... você sabe, estou ansioso pro nosso casamento.

_Meu vizinho acabou de aparecer sem camisa na varanda dele... você acha que eu também tenho direito a alguns garotos errados nessa história?

_Você tá querendo me deixar com ciúmes, é isso?

_Acabei de acenar pra ele!

_Ok, you won. Não vou pro bar mais. Vou continuar lendo o nosso livro aqui, embaixo da coberta.

_Melhor assim...

_Já vou te deixar em paz. Só diz que me ama pra eu poder dormir mais tranquilo...

_Lá vai mais um: idiota!

_Não, agora eu tô falando sério... parece meio clichê, mas eu queria muito ouvir que você me ama. Eu tô tão sozinho aqui e a primeira pessoa pra quem eu penso em ligar é você, sempre! E você sabe que você é uma das únicas pessoas com quem eu ainda me importo de verdade nesse mundo, e eu...

_Amo muito você.

_Brigado, também te amo muito. Fica com Deus e vê se esquece aquele babaca.

_Já tô esquecendo... agora eu estou focada em planejar nosso casamento. Fica com Deus também e vê se esquece que aquele bar existe.

_Ok, boa noite.

_Boa noite.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Banquete

É se sentir sozinho quando há vários amigos em volta. É abraçar um desconhecido e querer ficar lá, semimorto entre os braços da pessoa. É ver vários filmes e não conseguir se identificar com personagem nenhum. É estar tão apático que nem chorar consegue mais. É estar tão afundado e sufocado que nem dá vontade de vir à tona para dar umas respiradas. É ouvir palavras e palavras e palavras e nem se interessar em encontrar significados para elas. É ter um colchão muito pesado em cima do peito, com crianças pulando em cima sem parar. É não conseguir nadar nem a favor da maré. É querer fechar os olhos no meio de uma conversa ou se imaginar deitado no asfalto quente que tem ali perto. É levar uma rasteira da sua última esperança. É estar tão costurado na realidade que levantar vôo pro céu de estrelas não é mais possível. É notar que você já não respira faz tempo, só que continua boiando entre a superfície e o fundo. É ver a linha de chegada sair correndo sempre que você chega perto. É se deparar com um você que não acredita mais nas histórias que você conta. É perceber que, em um banquete de sentimentos, você se serviu dos piores, dos mais fúteis, dos mais mesquinhos, e que engoliu cada um deles com boca de glutão, nem digeriu. É se sentir a peça menos importante de um quebra cabeças, tipo aquele pedacinho de céu que é igual a vários outros. É se sentir ridículo, extremamente desconfortável com essa versão de você mesmo que você criou. Ou que as pessoas criaram, sei lá.

domingo, 23 de outubro de 2011

Ah, o amor! Costumava até senti-lo pelo corpo. Nos braços, enquanto abraçava alguém, nas mãos, que andavam sempre cruzadas com outras mãos. Já cheguei a senti-lo nos pés, quando ficamos sem meias em volta da fogueira quente, e nas pernas, toda vez que saíamos para dançar.

Eu sentia amor nos ombros quando alguém, despretensiosamente, me fazia uma massagem, e nos ouvidos, quando alguém tecia um elogio bobo. Na barriga e nas bochechas, o amor vinha quando o riso perdia o controle. O nariz sentia o amor no cheiro de bolo quentinho e o cabelo também exalava amor quando se perdia em um cafuné.

Minha boca sentia amor quando estava junto da sua.

Mas hoje... Hoje foi diferente. Hoje o amor me escorreu pelos olhos.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Grey

Ela bateu a porta sem nem olhar pra trás.
Enquanto juntava seus pertences espalhados pela casa, a cada piscada que eu dava uma cor se esvaía. Tentei manter os olhos abertos por mais tempo, numa tentativa ridícula de adiar aquilo, mas a ardência fechava as minhas pálpebras e quando eu as abria novamente, lá se tinham ido duas ou três matizes. Ela carregou naquela caixa de papelão a minha alegria.
Se ela fosse uma cor, seria azul marinho. Combinava com meu sorriso amarelo! Mas, pelo visto, ela achou a combinação carro vermelho + casa branca de vidros verdes mais... harmoniosa.
O engraçado é que, no início de tudo, seu passatempo preferido era "dar mais tonalidade a minha vida". Em alguns meses, tinha transformado meus dias em telas de Monet e o meu apartamento em um projeto do qual Barragán se orgulharia. Os anos se passaram e agora ela foi embora. Levou a paleta com ela, é claro.
Tentei pintar tudo de novo, começar do zero. O problema é que eu só tinha guache, e depois da primeira lágrima foi tudo embora. Talvez tente aquarela mais tarde, quem sabe.
Só sei que, por enquanto, é melhor eu me acostumar com o cinza. (Que não vai deixar de ser uma bela cor, eu suponho).

sábado, 17 de setembro de 2011

Jornada

Acabei de ser criada. Saí da boca daquela menina ruiva que tem umas gotas escorrendo pelos olhos, logo ali na esquina. Ela me expeliu com tanta força de dentro de si que eu espirrei em todo mundo e foi difícil não me ouvir. Desde então, já passei por dentro do ouvido de várias gentes.
Engraçado foi ver a reação de quem passava enquanto eu entrava pelas orelhas ou saía pelas bocas de outras pessoas, mas dessa vez bem baixinho, tipo escondido.
Em alguns, era como se eu fosse uma pena fininha, dessas que fazem cócegas. Quando eu entrava, as pessoas esticavam os lábios para os lados, mostrando os dentes, e faziam um barulho estranho. Em outros, eu era uma faca que saía cortando por dentro e a reação era a dor escorrendo pelos olhos. Em outros poucos, a minha passagem causou escândalo e então eu vi alguns dedos tapando a boca em formato oval e depois alguns olhos esbugalhados. Por alguns eu passei despercebida, como se fosse um vento dentro de um quarto vazio. Em meio a um grupo de amigos, me misturei ao vinho e entrei direto pro estômago, causando danças constrangedoras e depois uma dor de cabeça arrumada.
Alguns me ignoraram, outros me ouviram e me repetiram em uma ou duas ocasiões. A menina ruiva, aquela que me concebeu lá no 1º parágrafo, nem lembrava mais que tinha me dito um dia. Um ou outro me guardou, lá no fundo, mas eu aproveitei uma dessas noites de vinho para escapulir durante um soluço e ir rondar por outras vizinhanças.
Até que um dia, um vento bateu e me pegou desprevenida, levantando-me do chão. Eu planei durante alguns segundos e, sem querer, entrei pelos ouvidos de um homem que passava a beira do caminho. Foi como cair em veludo e depois escorregar por entre espinhos, sem esquecer do mar agitado que tive que enfrentar para encontrar um pouco de calmaria. Mas a terra firme logo virou areia movediça e eu fui parar dentro da carga da caneta do homem. Em um piscar de olhos, já estava sendo lambuzada de tinta e passada para o papel. Pela primeira vez, fui escrita! E aquele homem parecia satisfeito com o resultado. Deitou sobre mim algumas outras folhas, mas sempre abria a página em que eu estava para dar mais uma olhada. E sorria.
Depois disso, tudo aconteceu rápido. Fui vista por mais algumas pessoas e ouvida por outras durante alguns telefonemas. Em algumas semanas, já estava sendo digitada em um teclado preto e depois prensada em novas folhas de papel por máquinas gigantes. Eu cheguei às bancas e às livrarias poucos meses depois. E que agitação! Passei por centenas de mãos e, na mesma noite, lá estávamos nós, penetrando os ouvidos alheios e causando todo tipo de sensação. A menina ruiva passou os olhos por mim e sentiu uma ponta de familiaridade, mas logo virou a página.
O homem, à uma hora dessas, já está de volta à beira do caminho, esperando o vento bater. A nossa sorte é que a previsão para hoje é de vendaval.