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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Banquete

É se sentir sozinho quando há vários amigos em volta. É abraçar um desconhecido e querer ficar lá, semimorto entre os braços da pessoa. É ver vários filmes e não conseguir se identificar com personagem nenhum. É estar tão apático que nem chorar consegue mais. É estar tão afundado e sufocado que nem dá vontade de vir à tona para dar umas respiradas. É ouvir palavras e palavras e palavras e nem se interessar em encontrar significados para elas. É ter um colchão muito pesado em cima do peito, com crianças pulando em cima sem parar. É não conseguir nadar nem a favor da maré. É querer fechar os olhos no meio de uma conversa ou se imaginar deitado no asfalto quente que tem ali perto. É levar uma rasteira da sua última esperança. É estar tão costurado na realidade que levantar vôo pro céu de estrelas não é mais possível. É notar que você já não respira faz tempo, só que continua boiando entre a superfície e o fundo. É ver a linha de chegada sair correndo sempre que você chega perto. É se deparar com um você que não acredita mais nas histórias que você conta. É perceber que, em um banquete de sentimentos, você se serviu dos piores, dos mais fúteis, dos mais mesquinhos, e que engoliu cada um deles com boca de glutão, nem digeriu. É se sentir a peça menos importante de um quebra cabeças, tipo aquele pedacinho de céu que é igual a vários outros. É se sentir ridículo, extremamente desconfortável com essa versão de você mesmo que você criou. Ou que as pessoas criaram, sei lá.

sábado, 3 de setembro de 2011

Racional

E se eu não quiser mais confiar em você? E se eu resolver dar um mute no que você está dizendo, ou melhor, gritando alto na minha cabeça? Estou pensando em tatear no escuro por um tempo, te dar umas férias. Você deve estar bem cansada, afinal.
Nunca imaginei que a nossa convivência pudesse criar conflito um dia, nunca mesmo! Sempre fui tão orgulhosa de ter você como aliada, diferente da maioria das pessoas, que te desprezam ou esquecem que você existe. Você sempre me fez andar pelo caminho certo, tomando as atitudes certas, sendo amiga das pessoas certas... Mas e agora?
Ainda não entendo porque o seu alarme soava quando meus pés se entrelaçavam com os dele ou quando os dedos se tocavam por baixo da mesa. Não vejo o mal que você vê em cozinhar e jantar a dois, fazer brigadeiro enquanto o outro lava a louça e depois raspar a panela até fazer barulho. Sempre notei o seu olhar desconfiado enquanto a gente cochilava em algum filme ruim ou a sua cara de desprezo quando a gente dançava, de meias no chão, uma música qualquer na sala. Lembro do dia em que lia um livro apoiada nas costas dele e me distraí observando as linhas e caminhos dos fios de cabelo pela nuca. Você, sem dó, jogou na minha cara que “nem ler eu conseguia mais”.
E essa sua aversão ao que eu entendia por felicidade acabou me contaminando. Será você tão sábia assim? E quem te ensinou tão bem a me engambelar? Hoje penso que alimentei demais você, te endeusei demais.
Agora a única coisa que eu espero é que a sua companhia seja tão agradável quanto a dos olhos que eu deixei ir embora e que os seus braços sejam tão firmes quanto os dele seriam no caso de eu escorregar.
Ou de precisar de um abraço.