quarta-feira, 27 de junho de 2012
Fatal
sábado, 2 de junho de 2012
Solidão é saudade de alguém que nunca existiu
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Bip
“Meu Deus, uma secretária eletrônica... Isso vai ser estranho, mas vamos lá: terça feira eu passei no apartamento pra pegar algumas coisas que estavam faltando e acabei passando umas duas horas por lá. Depois de encaixotar as coisas, eu passei pela varanda e lembrei como a vista era linda (você reparou naquele céu de terça?). Você sabe como eu amo os últimos minutos da tarde... Ver tudo se transformando de amarelo para laranja e depois para rosa e lilás até virar breu. É como se a gente pudesse aproveitar o melhor dos dois períodos, sem ter que escolher. Nunca consegui decidir se sou uma pessoa do dia ou da noite. Mas enfim, quando as primeiras estrelas começaram a aparecer, a minha visão ficou turva e eu percebi que estava chorando. É claro que eu já chorei antes, mas nunca passou de um aperto no peito e um olho marejado. Mas na terça eu cheguei a molhar as mangas da minha camisa com lágrimas e dar uns soluços tipo os que as mulheres dão nos filmes. É que eu percebi que essa mudança não tem nada a ver com janelas maiores ou tomadas mais bem posicionadas... Também não tem a ver com paredes menos sujas de memórias ou um sofá com menos vincos de experiências. Há muito tempo, a minha ideia de lar era qualquer lugar onde eu estivesse com você, e lembrar disso tornou o noss... o apartamento frio demais. Entregar as chaves na imobiliária foi como assinar um contrato de abandono de você.
Enquanto eu chorava, a única coisa em que eu pensava era se aquele momento equivalia às cenas dos filmes em que o mocinho conclui uma fase e segue, de queixo erguido, para uma muito melhor; ou se aquele momento tinha mais a ver com o choro amargo dos finais infelizes ou com o choro insignificante de algum coadjuvante, de quem todos sentem pena.
O que eu quero de verdade com esse telefonema é dizer que eu sinto muito, muito mesmo, se eu demorei demais para entender a profundidade das coisas. Se esse for mesmo o momento em que a nossa estrada se bifurca, que a gente possa ser grato ao destino pelo que vivemos até aqui. Que a gente possa ser grato às circunstâncias invisíveis (mas palpáveis) que vão nos poupar de algo que nós nem mesmo queremos. Ou que só achamos que queremos. Desculpa se estou meio confuso, acabei de beber uma garrafa inteira daquele champagne velho que a gente guardava pra ocasiões especiais. Droga, não devia ter falado isso... Agora você vai achar que eu estou falando essas coisas da boca pra fora. Mas eu não estou, eu posso jurar. Você mesma diz que a bebida só faz você colocar pra fora coisas que você já queria dizer, mas não teve coragem. No meu caso, acho que não faltou coragem... Mas sobrou orgulho, isso é verdade.
Esse papo de champagne também me fez perceber que eu já não sou um garoto. Eu preciso tomar decisões todos os dias, todas as horas... e hoje eu vejo que não consigo tomar decisões sozinho. Parece que o meu “eu tomador de decisões” é um mosaico de todo mundo que já passou pela minha vida. A voz que diz “não” ou “sim” ou “talvez” é uma mistura da voz dos meus pais, dos meus professores, dos meus amigos de faculdade, de trabalho, da sua voz. Não acho que isso seja uma falta de personalidade nem nada, é algo que acontece com todo mundo. O ponto é que eu não consigo me desvencilhar das pessoas que passaram pela minha vida, porque eu sou um pouco de cada uma delas. Entendeu mais ou menos?
Preciso de um lugar onde eu possa pintar a nossa história nas paredes e no teto. Um lugar em que eu possa olhar pra mim mesmo todo dia e que isso não doa. Talvez eu nunca consiga ou talvez semana que vem eu já esteja muito bem sucedido. Eu não sei.
(silêncio)
Mas se no final das contas eu descobrir que esse lugar é um lugar que nós já conhecemos, que só nós dois conhecemos, eu quero que você vá comigo. Eu quero esquecer as bagagens e as caixas e quero que você vá comigo.
Acabei de receber o aviso de que meu tempo está acabando. Se um dia você chegar a ouvir isso, quero que me ligue imediatamente. Quando eu vir o seu nome piscar na tela, vou saber sua resposta. Não é pretensão nem nada... É que eu sei que esse telefone continua no nosso apartamento. Se você voltar lá algum dia e ainda apertar o botão da secretária, só pode ser um sinal, um sinal de que é pra ser. Por que é como eu acabei de dizer: o destino nos poupa das coisas que não queremos de verdade, mas se algo tem mesmo que acontecer, ele dá uma força.
Te amo, até logo.”
sábado, 24 de dezembro de 2011
Silêncio
O que é realmente assustador é quando as luzes se apagam. Sempre tenho a sensação de que o interruptor também controla a quantidade de oxigênio no quarto. Quando o meu corpo encosta na cama, um homem gordo e alto vem e aperta a minha garganta. Fico sem fôlego e minutos depois alguma coisa dentro de mim se expande e eu penso que vou explodir. É como se fosse um outro homem alto e gordo, só que por dentro.
Fico lutando em vão por alguns minutos, tentando conter a situação sozinha, mas as minhas mãos, em um movimento involuntário, deslizam até o celular e eu aperto o botão laranja.
“Oi filha! Não sei se você tem o costume de ouvir essas mensagens, mas vou ter que falar por aqui mesmo, já que você nunca atende o telefone. Eu e sua mãe vamos até o sítio da tia Cláudia amanhã e só voltamos na segunda. Estou avisando só para o caso de você ligar e não encontrar a gente em casa. Não precisa ficar preocupada. Se você puder, avisa pro seu irmão também. Te amamos, boa sorte com a entrevista de amanhã!”
Um pouco de óleo na pista e tudo o que restou da minha família foi essa mensagem de voz. Aperto o repeat até conseguir dormir, se não o homem alto vem me estrangular de novo.
Perdi meu celular há duas semanas. Foi difícil no início, passei uns três dias sem dormir. Quando finalmente me rendi, o homem alto veio e me passou a mão pelos cabelos. Ainda assustada, o senti entrando pelas cobertas e me abraçando delicadamente. Dormi depois de 2 minutos de cafuné.
Hoje em dia, ele nem me parece tão gordo. Hoje em dia, nós somos amigos. Hoje em dia, o levo para todo lugar que eu vou. O mundo continua cheio demais pro meu gosto, mas quando eu estou com o homem alto, as pessoas mantêm distância.
Melhor assim.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Desengano
Pensei que podia ser um sonho, mas já tinha sonhado várias vezes com isso e nenhuma delas tinha sido tão palpável. Cheguei a considerar que tudo fosse um devaneio, dos fortes. Mas a última coisa da qual me lembro é de estar andando no shopping. Se fosse mesmo um devaneio, as pessoas já teriam interferido, já teriam perguntado se eu estou bem ou se eu quero um copo d`água. Digo com essa certeza porque já aconteceu, várias vezes.
Dessa vez era diferente. Eu sentia o calor, eu sentia o gosto. Eu sentia os meus dedos fincados em um braço, tão flexionados que até doíam. A minha panturrilha e os meus dedos latejavam, já que eu estava na ponta dos pés para que as bocas se encontrassem.
Mas porque eu estava segurando o braço com tanta força? Porque eu tinha que ficar na ponta dos pés? Pelo que eu me lembro, a gente tem mais ou menos a mesma altura... E por que a sala da nossa casa tinha ficado tão barulhenta de uma hora para outra?
Abri os olhos e tinha a minha frente um homem completamente estático, enrijecido. Um completo desconhecido. Um pouco do meu cabelo tinha se prendido em sua barba e ele estava visivelmente desconfortável com os meus dedos praticamente atravessando o tríceps dele. Me descolei vagarosamente e olhei em volta, meio que por impulso. Uma menininha, linda, me olhava com dois olhos imensos enquanto agarrava a mão do pai. Algumas pessoas que estavam sentadas no café e que tinham visto a cena desde o início me encaravam com indiscrição.
Eu tinha lançado o meu corpo sobre um estranho e, como se não bastasse, tinha o beijado com voracidade na frente de sua filhinha, de no máximo 4 anos. Hoje, pensando melhor, vejo que a semelhança entre vocês era pouca: no máximo a barba, ou o porte físico.
Só sei que, apesar de ter pedido muitas desculpas àquele homem, eu não me arrependia do que tinha feito. Quando disse que o tinha confundido com outra pessoa, eu estava mentindo. Naquele curto espaço de tempo, aquele homem, para mim, foi você.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Wake up call
_Até que enfim!
_Oi pra você também! Como você tá?
_Eu tô bem, meio cansada só. E você? Porque ficou tanto tempo sem dar notícia?
_Acho que eu queria me certificar de que você ia sentir saudade de mim...
_Humm, idiota... Como vai essa cidade horrível?
_Você nem sabe onde eu tô!
_Força do hábito... Diz que eu errei!
_Não, você acertou... hotel de quinta, chuva desde 5 horas, nada de frigobar.
_Graças a Deus! Você lembra do que fez da última vez?
_Estou tentando afastar essa imagem da minha mente desde o mês passado e agora você fez ela virar uma tela aqui no meu quarto. Tô olhando e perguntando quem pôde ter tanto mau gosto.
_Ah, essa eu sei: foi você mesmo.
_Legal... mas me diz, o que você tá fazendo agora?
_Ai, essa era a última coisa que você podia perguntar...
_Diz logo.
_Tô comendo brigadeiro, deitada na rede da varando do meu quarto, ouvindo música pop de baixa qualidade, pensando em tudo que eu tenho pra fazer até segunda.
_Terminou, né?
_Terminei... Todo mundo já sabia que isso ia acontecer.
_Pois é, eu terminei também...
_Mas você não tava namorando ninguém, seu babaca.
_Foi só pra você não se sentir sozinha! E muito obrigada pelo babaca.
_De nada.
_Hei, posso dizer o que eu tô fazendo nesse exato momento?
_Se não tiver nada a ver com pornografia ou falta de higiene, pode.
_Então deixa pra lá...
_Que nojo!
_Brincadeira... Estou finalmente lendo aquele livro que você me deu no meu último aniversário e cheguei a uma conclusão que mudou minha vida.
_Que legal! Que conclusão é essa?
_Eu saquei que, no final das contas, eu vou casar com você, mas que antes disso acontecer, você ainda vai me chamar muitas vezes de idiota e eu vou passar por diversas garotas erradas.
_Posso te chamar de idiota agora para contribuir com a sua cota?
_Eu ficaria lisonjeado. Aliás, estou até pensando em descer para o bar para encontrar várias garotas erradas de uma vez... você sabe, estou ansioso pro nosso casamento.
_Meu vizinho acabou de aparecer sem camisa na varanda dele... você acha que eu também tenho direito a alguns garotos errados nessa história?
_Você tá querendo me deixar com ciúmes, é isso?
_Acabei de acenar pra ele!
_Ok, you won. Não vou pro bar mais. Vou continuar lendo o nosso livro aqui, embaixo da coberta.
_Melhor assim...
_Já vou te deixar em paz. Só diz que me ama pra eu poder dormir mais tranquilo...
_Lá vai mais um: idiota!
_Não, agora eu tô falando sério... parece meio clichê, mas eu queria muito ouvir que você me ama. Eu tô tão sozinho aqui e a primeira pessoa pra quem eu penso em ligar é você, sempre! E você sabe que você é uma das únicas pessoas com quem eu ainda me importo de verdade nesse mundo, e eu...
_Amo muito você.
_Brigado, também te amo muito. Fica com Deus e vê se esquece aquele babaca.
_Já tô esquecendo... agora eu estou focada em planejar nosso casamento. Fica com Deus também e vê se esquece que aquele bar existe.
_Ok, boa noite.
_Boa noite.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Banquete
É se sentir sozinho quando há vários amigos em volta. É abraçar um desconhecido e querer ficar lá, semimorto entre os braços da pessoa. É ver vários filmes e não conseguir se identificar com personagem nenhum. É estar tão apático que nem chorar consegue mais. É estar tão afundado e sufocado que nem dá vontade de vir à tona para dar umas respiradas. É ouvir palavras e palavras e palavras e nem se interessar em encontrar significados para elas. É ter um colchão muito pesado em cima do peito, com crianças pulando em cima sem parar. É não conseguir nadar nem a favor da maré. É querer fechar os olhos no meio de uma conversa ou se imaginar deitado no asfalto quente que tem ali perto. É levar uma rasteira da sua última esperança. É estar tão costurado na realidade que levantar vôo pro céu de estrelas não é mais possível. É notar que você já não respira faz tempo, só que continua boiando entre a superfície e o fundo. É ver a linha de chegada sair correndo sempre que você chega perto. É se deparar com um você que não acredita mais nas histórias que você conta. É perceber que, em um banquete de sentimentos, você se serviu dos piores, dos mais fúteis, dos mais mesquinhos, e que engoliu cada um deles com boca de glutão, nem digeriu. É se sentir a peça menos importante de um quebra cabeças, tipo aquele pedacinho de céu que é igual a vários outros. É se sentir ridículo, extremamente desconfortável com essa versão de você mesmo que você criou. Ou que as pessoas criaram, sei lá.