sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Fuso


      Ele, se pudesse, usaria toda a sua força para sair correndo pela bola da Terra e ir pulando, como se fossem obstáculos, cada fuso horário que encontrasse. Ela voaria para além da atmosfera e esperaria o mundo dar três quartos de volta para só então pousar de novo, se fosse conveniente. Se pudessem desaprender a matemática básica, o fariam. É cansativo demais fazer contas de + 6 ou – 6, adicionar 1 para quando é verão, depois subtrair quando for inverno... Fariam, os dois, tudo que fosse necessário para evitar os clichês “o que será que ele está fazendo agora?” ou “será que ela já foi deitar?”.

      Se fossem escolher os próprios sonhos, não escolheriam nada parecido com uma chuva de relógios gigantes ou um afogamento dramático depois de horas a nado. Pensavam constantemente na época em que o tempo era só uma questão de ponteiros, e não de distância. Lembravam-se com saudosismo do privilégio de dividir um mesmo horizonte (que um dia tiveram). A última coisa que pensavam para o próprio futuro, há alguns anos atrás, era isso.

      Mas, por distração do destino, no fim da tarde de uma terça-feira gelada (para ela) e no meio dia da mesma terça-feira geladíssima (para ele), o sol se pôs em um espetáculo único. E quando digo único, não me refiro só à beleza singular do fenômeno, mas ao fato de estar acontecendo ao mesmo tempo para os dois lugares. Para os dois.

      Na teoria, aquele pôr do sol indicava o início de um inverno rigoroso, principalmente para ele. Na cidade onde estava, ele só veria noite por uns bons meses. Mas, na prática, aquele momento tinha reacendido alguma coisa dentro dela e despertado o melhor dos sentimentos para ele. O inverno tinha oficialmente começado, mas, dentro dos dois, era primavera.


domingo, 15 de julho de 2012

Sobre como deveria ter sido

     Saltaríamos do táxi em frente à entrada principal, você carregando as malas grandes e eu fingindo ajudar, pegando uma mochila pequena e a minha bolsa de mão. Cruzaríamos as portas automáticas e andaríamos pelos corredores demasiadamente iluminados, preocupados em achar o guichê certo e conferindo o relógio a cada cinco minutos. Não que fôssemos estar atrasados, mas esse é um dos artifícios para quando estamos em situações desconfortáveis, recorrer a um hábito corriqueiro como conferir as horas. Enfrentaríamos as filas tentando travar diálogos simples, nada muito nostálgico ou relevante. 

     Depois de despachar a bagagem, tomaríamos café em uma daquelas lanchonetes com mesinhas para dois. Eu faria alguma observação sobre as flores do balcão, você diria que o pedaço de bolo que pediu não estava bom. E enquanto o líquido escuro descesse pelas nossas gargantas, o silêncio finalmente se estabeleceria entre nós. Não como um elefante grande e inconveniente, como ele costuma ser nessas situações, mas como um alívio que ambos estavam adiando, incompreensivelmente. 

     Andaríamos até a ala de espera e sentaríamos lado a lado em um daqueles bancos enormes. Eu correria os olhos sobre um livro qualquer e você ficaria no celular, checando e-mails. Depois de alguns minutos, eu te daria o livro e pediria o celular para ouvir música. 

     Quando finalmente o aviso do voo soasse nos alto-falantes do aeroporto, nos levantaríamos e eu te levaria até o portão de embarque. Você deixaria a mochila no chão e me abraçaria como se fosse a última vez. Talvez fosse, realmente. Minha cabeça encontraria o ponto exato entre o seu pescoço e a sua clavícula, onde ela se encaixa tão bem, e nós ficaríamos ali por pelo menos 5 minutos. Quando fosse mesmo hora de ir, meus dedos se aninhariam em seu cabelo e nós daríamos um beijo curto. Provavelmente seria estranho, com gosto de choro apesar de não haver lágrimas. Com jeito de último, embora não houvesse certeza. 

     Você pegaria sua mochila e iria embora sem olhar para trás. Eu ficaria te olhando até você virar um ponto no fim do corredor. A essa altura, com certeza haveria lágrima em meu rosto, mas eu não sentiria como se estivesse quebrando uma promessa. Por trás do seu andar seguro em direção àquele avião, eu seria capaz de ver a água nos seus olhos também. 

     Mas, apesar da quantidade insana de futuro do pretérito nesse texto, não é assim que deveria ter sido. O bom, pra mim, seria se você nunca tivesse ido.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fatal


     E então, em meio a um abraço, meu punhal perfurou pele, gordura, músculos, abriu algumas dezenas de vasos sanguíneos e finalmente encontrou os tecidos vitais que procurava, causando um estrago quase instantaneamente fatal.
     O corpo mole caiu aos meus pés e a roupa de linho branco, ensopada de sangue, estava colada na ferida recém-aberta.  A respiração se manteve calma até o momento em que o líquido obstruiu a garganta e passou a também sair pela boca, formando um filete vermelho vivo no canto do lábio.
     Ciente do meu êxito, olhei para o rosto da vítima durante os seus últimos segundos. Os cantos da boca lentamente se curvaram para cima e os olhos cintilavam com um brilho meio tétrico, como se desejassem aquele momento. Ela queria ser morta.
     Talvez não tanto quanto eu queria matá-la. Saudade.

sábado, 2 de junho de 2012

Solidão é saudade de alguém que nunca existiu


    Ontem, quando cruzou aquela avenida, sentiu solidão. Parecia que área de seu corpo que envolve o coração estava se encolhendo devagar e sendo empurrada pra dentro, mas tudo continuava estável pelo lado de fora. Nos primeiros minutos, soou como uma melancolia saudável, aquela tristeza leve que a gente sente às vezes, quando está sozinho, e que passa assim que lembramos de alguma coisa boa. Essa solidão faz até bem, pensava ela. Faz você se sentir um personagem de filme ou de livro, que sempre toma as decisões mais importantes do enredo enquanto anda sozinho pelas ruas ou toma uma bebida amarga no balcão de um bar vazio.
    O problema é que, ontem, não havia decisão a ser tomada, não havia uma ligação importante a ser feita. Não havia sequer uma tristeza boa para ser lembrada ou um passado negro a ser remoído. As tolices da adolescência, que costumavam diverti-la e até mesmo inspirá-la, viraram apenas tolices e lembranças das quais se envergonhar. Entre uma passada e outra, tudo se tornara ridículo, fútil, intragável, sem propósito: as roupas, o jeito que tinha prendido o cabelo, a mensagem que tinha mandado para o amigo que já não via há tempos (e que não tinha sido respondida), o flerte com o desconhecido no ônibus. É incrível como alguns minutos desse sentimento podem fazer você se arrepender de tudo que fez nas últimas 48 horas. É como se você mesmo se tornasse o único espectador de todos os seus atos e decisões e julgasse cada palavra, cada movimento.
    Dessa vez, não era solidão Hollywoodiana. Não havia o que ser feito.
    Agora, pelo menos, ela tinha uma explicação: solidão é saudade de alguém que nunca existiu.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Bip

Não estamos em casa, deixe o seu recado após o Bip

“Meu Deus, uma secretária eletrônica... Isso vai ser estranho, mas vamos lá: terça feira eu passei no apartamento pra pegar algumas coisas que estavam faltando e acabei passando umas duas horas por lá. Depois de encaixotar as coisas, eu passei pela varanda e lembrei como a vista era linda (você reparou naquele céu de terça?). Você sabe como eu amo os últimos minutos da tarde... Ver tudo se transformando de amarelo para laranja e depois para rosa e lilás até virar breu. É como se a gente pudesse aproveitar o melhor dos dois períodos, sem ter que escolher. Nunca consegui decidir se sou uma pessoa do dia ou da noite. Mas enfim, quando as primeiras estrelas começaram a aparecer, a minha visão ficou turva e eu percebi que estava chorando. É claro que eu já chorei antes, mas nunca passou de um aperto no peito e um olho marejado. Mas na terça eu cheguei a molhar as mangas da minha camisa com lágrimas e dar uns soluços tipo os que as mulheres dão nos filmes. É que eu percebi que essa mudança não tem nada a ver com janelas maiores ou tomadas mais bem posicionadas... Também não tem a ver com paredes menos sujas de memórias ou um sofá com menos vincos de experiências. Há muito tempo, a minha ideia de lar era qualquer lugar onde eu estivesse com você, e lembrar disso tornou o noss... o apartamento frio demais. Entregar as chaves na imobiliária foi como assinar um contrato de abandono de você.
Enquanto eu chorava, a única coisa em que eu pensava era se aquele momento equivalia às cenas dos filmes em que o mocinho conclui uma fase e segue, de queixo erguido, para uma muito melhor; ou se aquele momento tinha mais a ver com o choro amargo dos finais infelizes ou com o choro insignificante de algum coadjuvante, de quem todos sentem pena.
O que eu quero de verdade com esse telefonema é dizer que eu sinto muito, muito mesmo, se eu demorei demais para entender a profundidade das coisas. Se esse for mesmo o momento em que a nossa estrada se bifurca, que a gente possa ser grato ao destino pelo que vivemos até aqui. Que a gente possa ser grato às circunstâncias invisíveis (mas palpáveis) que vão nos poupar de algo que nós nem mesmo queremos. Ou que só achamos que queremos. Desculpa se estou meio confuso, acabei de beber uma garrafa inteira daquele champagne velho que a gente guardava pra ocasiões especiais. Droga, não devia ter falado isso... Agora você vai achar que eu estou falando essas coisas da boca pra fora. Mas eu não estou, eu posso jurar. Você mesma diz que a bebida só faz você colocar pra fora coisas que você já queria dizer, mas não teve coragem. No meu caso, acho que não faltou coragem... Mas sobrou orgulho, isso é verdade.
Esse papo de champagne também me fez perceber que eu já não sou um garoto. Eu preciso tomar decisões todos os dias, todas as horas... e hoje eu vejo que não consigo tomar decisões sozinho. Parece que o meu “eu tomador de decisões” é um mosaico de todo mundo que já passou pela minha vida. A voz que diz “não” ou “sim” ou “talvez” é uma mistura da voz dos meus pais, dos meus professores, dos meus amigos de faculdade, de trabalho, da sua voz. Não acho que isso seja uma falta de personalidade nem nada, é algo que acontece com todo mundo. O ponto é que eu não consigo me desvencilhar das pessoas que passaram pela minha vida, porque eu sou um pouco de cada uma delas. Entendeu mais ou menos?
Preciso de um lugar onde eu possa pintar a nossa história nas paredes e no teto. Um lugar em que eu possa olhar pra mim mesmo todo dia e que isso não doa. Talvez eu nunca consiga ou talvez semana que vem eu já esteja muito bem sucedido. Eu não sei.
(silêncio)
Mas se no final das contas eu descobrir que esse lugar é um lugar que nós já conhecemos, que só nós dois conhecemos, eu quero que você vá comigo. Eu quero esquecer as bagagens e as caixas e quero que você vá comigo.
Acabei de receber o aviso de que meu tempo está acabando. Se um dia você chegar a ouvir isso, quero que me ligue imediatamente. Quando eu vir o seu nome piscar na tela, vou saber sua resposta. Não é pretensão nem nada... É que eu sei que esse telefone continua no nosso apartamento. Se você voltar lá algum dia e ainda apertar o botão da secretária, só pode ser um sinal, um sinal de que é pra ser. Por que é como eu acabei de dizer: o destino nos poupa das coisas que não queremos de verdade, mas se algo tem mesmo que acontecer, ele dá uma força.
Te amo, até logo.”

*Três músicas que eu amo devem receber créditos por esse texto (e merecem ser ouvidas): Somewhere only we know, Home e Evening Kitchen

sábado, 24 de dezembro de 2011

Silêncio

Não sei se isso acontece com todo mundo, mas têm dias que eu sinto que o mundo é cheio demais. E eu não estou falando de multidões em shoppings ou de shows de rock. Aqui mesmo, na minha casa, quando estou sozinha com meu peixe e com o apresentador do jornal da noite, é como se faltasse ar. Sei o quanto isso parece patético, mas enquanto eu não vou me deitar, deixo a tv ligada ou a vitrola tocando. É mais confortável, é como se alguém de fato estivesse aqui.

O que é realmente assustador é quando as luzes se apagam. Sempre tenho a sensação de que o interruptor também controla a quantidade de oxigênio no quarto. Quando o meu corpo encosta na cama, um homem gordo e alto vem e aperta a minha garganta. Fico sem fôlego e minutos depois alguma coisa dentro de mim se expande e eu penso que vou explodir. É como se fosse um outro homem alto e gordo, só que por dentro.

Fico lutando em vão por alguns minutos, tentando conter a situação sozinha, mas as minhas mãos, em um movimento involuntário, deslizam até o celular e eu aperto o botão laranja.

“Oi filha! Não sei se você tem o costume de ouvir essas mensagens, mas vou ter que falar por aqui mesmo, já que você nunca atende o telefone. Eu e sua mãe vamos até o sítio da tia Cláudia amanhã e só voltamos na segunda. Estou avisando só para o caso de você ligar e não encontrar a gente em casa. Não precisa ficar preocupada. Se você puder, avisa pro seu irmão também. Te amamos, boa sorte com a entrevista de amanhã!”

Um pouco de óleo na pista e tudo o que restou da minha família foi essa mensagem de voz. Aperto o repeat até conseguir dormir, se não o homem alto vem me estrangular de novo.

Perdi meu celular há duas semanas. Foi difícil no início, passei uns três dias sem dormir. Quando finalmente me rendi, o homem alto veio e me passou a mão pelos cabelos. Ainda assustada, o senti entrando pelas cobertas e me abraçando delicadamente. Dormi depois de 2 minutos de cafuné.

Hoje em dia, ele nem me parece tão gordo. Hoje em dia, nós somos amigos. Hoje em dia, o levo para todo lugar que eu vou. O mundo continua cheio demais pro meu gosto, mas quando eu estou com o homem alto, as pessoas mantêm distância.
Melhor assim.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Desengano

Por alguns minutos, eu pude realmente acreditar que eu tinha voltado no tempo, que as coisas tinham se restabelecido. Algum passe de mágica, que eu já não lembrava mais qual foi, tinha me trazido de volta para casa, tinha me colocado de novo naquele abraço confortável. Fazia força para lembrar como eu tinha conseguido ir para lá, mas ao mesmo tempo eu não queria. Alguma coisa me dizia que aquilo ia ser curto, ia se esvair como areia entre os dedos.

Pensei que podia ser um sonho, mas já tinha sonhado várias vezes com isso e nenhuma delas tinha sido tão palpável. Cheguei a considerar que tudo fosse um devaneio, dos fortes. Mas a última coisa da qual me lembro é de estar andando no shopping. Se fosse mesmo um devaneio, as pessoas já teriam interferido, já teriam perguntado se eu estou bem ou se eu quero um copo d`água. Digo com essa certeza porque já aconteceu, várias vezes.

Dessa vez era diferente. Eu sentia o calor, eu sentia o gosto. Eu sentia os meus dedos fincados em um braço, tão flexionados que até doíam. A minha panturrilha e os meus dedos latejavam, já que eu estava na ponta dos pés para que as bocas se encontrassem.

Mas porque eu estava segurando o braço com tanta força? Porque eu tinha que ficar na ponta dos pés? Pelo que eu me lembro, a gente tem mais ou menos a mesma altura... E por que a sala da nossa casa tinha ficado tão barulhenta de uma hora para outra?

Abri os olhos e tinha a minha frente um homem completamente estático, enrijecido. Um completo desconhecido. Um pouco do meu cabelo tinha se prendido em sua barba e ele estava visivelmente desconfortável com os meus dedos praticamente atravessando o tríceps dele. Me descolei vagarosamente e olhei em volta, meio que por impulso. Uma menininha, linda, me olhava com dois olhos imensos enquanto agarrava a mão do pai. Algumas pessoas que estavam sentadas no café e que tinham visto a cena desde o início me encaravam com indiscrição.

Eu tinha lançado o meu corpo sobre um estranho e, como se não bastasse, tinha o beijado com voracidade na frente de sua filhinha, de no máximo 4 anos. Hoje, pensando melhor, vejo que a semelhança entre vocês era pouca: no máximo a barba, ou o porte físico.

Só sei que, apesar de ter pedido muitas desculpas àquele homem, eu não me arrependia do que tinha feito. Quando disse que o tinha confundido com outra pessoa, eu estava mentindo. Naquele curto espaço de tempo, aquele homem, para mim, foi você.